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Biografia
Professor Amilcar Vianna Martins (1907-1990)
de
Zigman Brener, pesquisador-professor-titular da
Universidade Federal de Minas Gerais
A
minha participação nessa homenagem
prestada pelo Centro de Pesquisas René
Rachou / FIOCRUZ reflete a longa e enriquecedora
convivência que tive o privilégio
de manter com o Prof. Amilcar Vianna Martins no
período de 1953 a 1990. Com a sua morte
desapareceu um dos grandes parasitologistas da
sua geração, que reunia a formação
de naturalista, o rigor do cientista, o pragmatismo
de sanitarista e a liderança de um formador
de Escola. Além disso, sua vida foi plena
de excitação, percalços,
feitos e conquistas que deram à sua existência
um caráter especial, do qual ele sempre
se orgulhou.
O
Prof. Amilcar iniciou sua vida profissional e
científica em 1925 no Instituto Ezequiel
Dias, a filial em Belo Horizonte do Instituto
Oswaldo Cruz. A emergência da precoce vocação
foi por ele mesmo descrita em 1983 quando, em
conferência proferida no Instituto Ezequiel
Dias, rememora seu primeiro contato com a instituição:
“Desculpem-me se me comovo e me vêm
lágrimas aos olhos, quando me recordo de
um dia do mês de abril de 1925, quando um
adolescente de 17 anos, ainda imberbe, penetrou
em uma pequena e feia casa da rua da Bahia, com
o mesmo respeito e o mesmo deslumbramento como
se entrasse no mais belo e mais santo dos templos,
pois era o templo da ciência, a casa de
Oswaldo Cruz. Não poderia o jovem, de então,
imaginar que era esse o dia decisivo de sua longa
vida, o dia que iria determinar o seu destino
e o seu “futuro”. Foi nessas circunstâncias
que conheceu pessoalmente Carlos Chagas e seus
colaboradores Eurico Villela, Arthur Neiva, Magarino
Torres e principalmente o seu fraternal amigo
Emanuel Dias. A sua produção científica
cobriu uma vasta gama de pesquisas acadêmicas
e aplicadas que se estenderam por 55 anos. O seu
primeiro trabalho, publicado em 1935, foi uma
investigação de grupos sangüíneos
de índios de Minas Gerais e nos anos subsequentes
realizou estudos sobre febre maculosa (uma rickettsiose
endêmica em Minas Gerais),esquistossomose,
doença de Chagas, escorpionismo, filariose,
calazar e leishmaniose muco-cutânea. Em
1940 publicou um trabalho no qual descreveu 25
casos de doença de Chagas em fase aguda
no oeste de Minas Gerais. Esse número de
pacientes era maior do que o número total
de casos agudos conhecidos até então
e a sua descrição contribuiu decisivamente
para a implantação do Centro de
Estudos de Doença de Chagas em Bambuí,
instituição que se tornou famosa
pelos seus estudos clínicos e epidemiológicos
da moléstia.
Entre
todas as suas pesquisas, a sua última e
mais prolongada afeição, foi o estudo
dos flebótomos realizado no Centro de Pesquisas
René Rachou da Fundação Oswaldo
Cruz, em Belo Horizonte. Juntamente com sua fiel
e dedicada colaboradora Alda Lima Falcão
publicou 64 trabalhos sobre a sistemática
de flebótomos e descreveu 52 novas espécies.
Sob a sua orientação o Laboratório
de Leishmaniose, do Centro de Pesquisas René
Rachou, acumulou cerca de 70.000 exemplares de
flebótomos, provavelmente a maior coleção
do Novo Mundo. A sua atividade nessa área
passou a atrair entomologistas e epidemiologistas
interessados em transmissores da leshimaniose,
de vários países da área
endêmica, para estágios e programas
de colaboração.
O
Prof. Amilcar foi o inspirador e mentor da Escola
de Parasitologia que se formou em Minas Gerais.
Como chefe do Departamento de Parasitologia da
Universidade Federal de Minas Gerais, fundador
e diretor do Centro de Pesquisas René Rachou,
teve a clarividência de associar as duas
instituições mediante pacto informal
que perdura até os dias de hoje. Essa ligação
criou as condições para que, sob
sua inspiração, fosse implantado
o curso de Pós- Graduação
de Parasitologia da UFMG através do qual
as teses de Mestrado e Doutorado têm sido
realizadas indistintamente nas duas instituições
formadoras de pessoal. No período de 1956
a 1961 ocupou os cargos de Diretor do Instituto
Nacional de Endemias Rurais e do Departamento
Nacional de Endemias Rurais, o precursor da legendária
SUCAM. Aos que o conheceram pessoalmente sempre
foi motivo de admiração a simplicidade
e o despojamento com que, deixando esses importantes
cargos de administração pública,
o Prof. Amilcar voltou às suas atividades
acadêmicas de ensino e pesquisa, dando um
exemplo aos seus amigos e estudantes de modéstia
e fidelidade à ciência.
Entre
todas as suas realizações, a que
mais o envaidecia foi a criação
do atual Centro de Pesquisas René Rachou,
fruto do seu prestígio pessoal junto ao
então presidente Juscelino Kubitscheck
de Oliveira. Por ato do Presidente foi criado
em 1956 o Instituto Nacional de Endemias Rurais
(INERU), ao qual se atribuiu “realizar estudos
e pesquisas” relacionadas às 13 endemias
incluídas no âmbito de atividades
do Departamento Nacional de Endemias Rurais. A
lei que criou o INERU previa a existência
de “centros de pesquisa regionais e um núcleo
central situado na Capital da República
(Rio de Janeiro) ou suas proximidades”.
Através de seu prestígio o Prof.
Amilcar conseguiu que o “núcleo central”
fosse situado em Belo Horizonte juntamente com
o Centro de Pesquisas, encurtando drástica
e simbolicamente os 400 km que separam Belo Horizonte
do Rio de Janeiro... Esse episódio era
com certa freqüência lembrado com nostalgia
e bom humor como prova do seu apego ao nosso Centro
(e o seu prestígio com o governo...).
A
outra face do cientista , do naturalista e do
líder, era a sua formação
humanista demonstrada pela devoção
à música erudita e a familiaridade
com a literatura, traços pessoais só
revelados aos amigos mais chegados. Conservacionista
engajado e patriota preocupado com problemas sociais
do país, tomou posições políticas
claras e corajosas. Em 1944 alistou-se voluntariamente
na Força Expedicionária Brasileira
para combater o nazi-fascismo.
Como
Capitão médico da reserva foi convocado
pelo Exército e, após curta permanência
em Belém do Pará, seguiu para a
Itália, ali permanecendo por toda a campanha
da FEB. Voltou ao Brasil e, de acordo com seu
depoimento, “ostentando algumas medalhas
no peito e promovido a Major”, assistiu
à queda da ditadura. Em 1969 foi compulsoriamente
aposentado pela ditadura militar do seu cargo
de Professor-Catedrático da Universidade
Federal de Minas Gerais, conquistado em concurso
público memorável. Sou testemunha
da amargura e da altivez com que enfrentou as
vicissitudes que se seguiram à sua aposentadoria.
Durante os 10 anos que se seguiram a essa violência,
o Prof. Amilcar empenhou-se em manter sua atividade
científica, tendo sido consultor da Organização
Mundial de Saúde em Genebra e participante
de projetos de pesquisa no Peru e Venezuela. Sem
entusiasmo pelas longas viagens aeronáuticas
(temor que sempre o acompanhou) e resistente a
afastar-se da sua família, composta de
esposa e nove filhos, a aceitação
dessas atividades no exterior foram ditadas em
grande parte pela sua necessidade de mostrar aos
ditadores da época o reconhecimento do
seu prestígio internacional e a disposição
de não se curvar ao autoritarismo. Trabalhando
em casa, com a cobertura dos amigos fiéis
e do Centro de Pesquisas René Rachou, continuou
a pesquisar a sistemática dos flebótomos.
Em 1978, juntamente com Paul Williams e Alda Lima
Falcão, publicou uma monografia sobre American
Sand Flies, um trabalho clássico, editado
pela Academia Brasileira de Ciências.
Em
1979, aos 72 anos, recebeu o título de
Professor Emeritus da Universidade Federal de
Minas Gerais. Era a derrocada do regime militar
e o destino lhe reservara assistir, pela segunda
vez, a queda de uma ditadura no país. Continuou
trabalhando normalmente e, em 1990, aos 82 anos,
quando faleceu, havia acabado de orientar sua
última tese de Doutorado.
Os
nossos 37 anos de contato profissional e pessoal
com o Prof. Amilcar foram marcados pelo prazer
da conversa amena e bem humorada, pela empatia
construída pelos longos e variados diálogos
e pelas afinidades gradualmente reconhecidas.
Nunca hesitei em interromper qualquer atividade
para receber no laboratório a sua quase
ritualística visita da tarde. Nesse longo
período partilhei de muitas das suas alegrias
e conquistas mas também vicissitudes. Lembro
os seus angustiantes dias passados durante a severa
fase aguda de doença de Chagas contraída
em trabalho de campo em 1957 e, cerca de trinta
anos após, os sintomas da doença
crônica que o afetaram profundamente. Recordo
a sua indignação contida e a revolta
pelo ato brutal punitivo do governo ditatorial,
a pusilanimidade de pretensos amigos e o obscurantismo
que se abateu sobre o país. Em nenhum momento,
entretanto, ele se dobrou diante das desventuras
que o destino lhe atribuiu e até o fim
o cientista e homem público permaneceu
altivo como exemplo para os seus estudantes, amigos
e colegas.

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